Raiz: hortas verticais para todos

A espanhola Lucía Salas de La Pisa e o mexicano Emiliano Gutiérrez conheceram-se num programa de incubação de ideias em Lisboa e juntos decidiram alinhar esforços e criar o projeto Raiz, uma start up que transforma espaços urbanos através da agricultura vertical, sejam prateleiras, torres, paredes ou qualquer outra estrutura vertical. Para tal, usam sistemas de irrigação hidropónico, um método sem solo onde a raiz da planta se encontra suspensa no ar ou em água que vai circulando, com os nutrientes necessários. Explorar a dimensão vertical do espaço e poupar até 90% da água em comparação à agricultura monoespecífica tradicional são as principais vantagens. “A agricultura vertical em ambiente controlado é uma evolução na forma de fazer as coisas. Produzimos mais, com menos”, afirmam os responsáveis.

Para melhor conhecer o projeto Raiz falámos com os dois sócios.

Como surgiu a ideia para o projeto Raiz?

A ideia do Raiz surgiu como resultado da identificação a nível global de uma tendência crescente de produção de vegetais nas cidades. Esta tendência advém, em parte, da intensificação do impacto negativo do ser humano no meio natural, e das previsões futuras de crescimento populacional, cujas consequências incluem não só a alteração do clima e deterioração do estado do ambiente biofísico, mas também de desafios ao nível da segurança alimentar. A potenciação de um meio de produção alimentar com menor impacto ambiental e maior impacto social é a nossa principal aspiração, ou objetivo, na criação do projeto. Acreditamos que existe uma necessidade muito forte de inovar na indústria agroalimentar e de criar cidades inteligentes e queremos trazer os nossos conhecimentos em software, negócios e marketing, arquitetura, ecologia e impacto para este caminho de inovação.

Porquê começar em Lisboa?

Que cidade melhor do que uma que conta já com mais de 500.000 mil alfacinhas (quase 3 milhões na área metropolitana)? Salientamos três aspetos principais que conferem à cidade de Lisboa uma grande atratividade no setor:

– Um ecossistema em ascensão em termos de inovação e consciencialização do mercado;

– Uma menor concorrência comparativamente a outros países como a Alemanha ou os Estados Unidos. Isto permite-nos captar participação de mercado desde o início e desenvolver a marca de forma mais eficiente;

– Um clima altamente ensolarado e um contexto nacional forte no que concerne a energia limpa, o que nos permite testar o modelo de energia híbrida utilizando LEDs e luz solar que temos vindo a desenvolver.

A missão do Raiz é fazer crescer vegetais dentro das cidades. Como o fazem?

Nas nossas hortas verticais, através da implementação de sistemas de controlo ambiental, regulamos a temperatura, humidade, luminosidade e concentração de dióxido de carbono, criando condições ótimas para o desenvolvimento das plantas. Aliamos a hidropónica à agricultura vertical de precisão e ao aproveitamento da radiação solar num sistema que se pretende prático e eficiente, baseado nos princípios da circularidade, sustentabilidade, comunidade e escalabilidade. Utilizamos não só a radiação solar complementada com luz artificial de lâmpadas LED, como integramos também painéis fotovoltaicos, procurando reduzir o consumo de energia de origem não renovável.

Com um sistema interconectado de hortas verticais, daremos vida a espaços obsoletos, traremos a produção de vegetais para junto do consumidor, reduzindo não só o impacto associado ao transporte, mas também o desperdício alimentar.

A indústria da agricultura urbana e vertical ainda enfrenta grandes desafios. Em particular em relação à sua escalabilidade e à sua sustentabilidade. Neste sentido, a experimentação, colaboração, recolha de dados e inovação são fundamentais, e é exatamente isso que a Horta Conceito de Lisboa representará – um vibrante centro de cultivo de vegetais que aproveita as sinergias locais para levar a agricultura urbana ao próximo nível.

De que forma se trata de uma forma evolutiva de agricultura?

A agricultura tradicional foi importante para o desenvolvimento do ser humano. No entanto, criou uma série de impactos e externalidades negativas que estamos a tentar resolver com a agricultura vertical. Cadeias de abastecimento longas, altas emissões de carbono, desperdício alimentar, nutrientes não renováveis que se infiltrar no solo, e chegam aos corpos de água e oceano; uso ineficiente da água (até 70% da água doce em Portugal é usada para agricultura), desflorestação, degradação dos solos…
A agricultura vertical em ambiente controlado é uma evolução na forma de fazer as coisas. Produzimos mais, com menos. Efetivamente, ainda que o cultivo vertical indoor não substitua totalmente a agricultura tradicional, se implementado de forma responsável, virá complementar o atual sistema agro-alimentar, contribuindo para a sua evolução em direção a uma situação de equilíbrio capaz de enfrentar as pressões do crescimento demográfico e das alterações climáticas.

Neste momento estão a transformar um contentor no Beato numa horta vertical. Como está a correr e qual o objetivo?

Avançámos como planeado! As primeiras plantas estão a crescer na parte inferior do contentor e estamos a terminar esta semana a instalação da parte superior, a câmara de cultivo.

De que forma pretendem chegar ao consumidor final e aos restaurantes?

Através do B2C, business to consumer – Comércio de produtos vegetais e experiências “da Raiz para sua casa” com subscrições mensais para os produtos preferência, e para “novas descobertas”; experiências (workshops, “harvest yourself”, etc.); venda direta através do site; e alavancagem de plataformas online (como o Gorillas e A Praça) para chegar ao consumidor final.

A a partir do B2B, business to business – Comércio de produtos vegetais: “da Raiz para o seu negócio/restaurante/bar” com modelos de entregas semanais para chefes, assentes em relações próximas baseadas na troca de informação e na adaptação da produção e oferta consoante a procura.

Também estamos a desenvolver a solução FaS, Farming as a Service – Comércio, implementação e manutenção/acompanhamento de infraestruturas de cultivo vertical: uma “Raiz” onde quiser, para todas as pessoas/negócios que querem ter ou proporcionar a terceiros uma alimentação saudável e ambientalmente responsável.

O nosso produto é destinado ainda para as grandes superfícies, agricultores (fase de infraestrutura), restaurantes, empresas que queiram melhorar a sua pegada ambiental, municípios que queiram trazer a horta para as cidades ou otimizar espaços de cultivo, localidades e instituições que pretendam ser mais autónomas e, assim, reduzir as importações, centros de ação social e escolas. E também comunidades que precisam de ultrapassar constrangimentos nos meios de produção tradicionais devido às alterações climáticas (flutuação temperatura, degradação do solo pelo fogo ou inundações, extremos climáticos e meteorológicos, etc.), áreas de solos de fraca produtividade ou com níveis elevados de contaminação/poluição.

Quais os vossos principais desafios?

A captação e retenção de recursos humanos qualificados, o desenvolvimento tecnológico e a captação de capital.

Que planos têm para o futuro?

Continuar a crescer! Vamos operar a nossa primeira horta para estandardizar processos, modularizar sistemas e ser capazes de evoluir para o farming as a service model. Já estamos em contacto com nstituições e empresas que querem colaborar connosco na criação da rede de hortas verticais.
A visão maior é expandir a variedade de vegetais que podemos cultivar para comunidades urbanas e capacitar pessoas em todo o mundo a estabelecer suas próprias hortas verticais com o apoio de nossa tecnologia e experiência.

No próximo dia 2 de julho, no Arroz Estúdios, acontece a inauguração da primeira horta vertical do projeto. As inscrições para marcar presença podem ser feitas aqui.

Mais informações em www.raiz.farm.

Foto: DR

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