Entrevista Tony Fox: Long live the king

Só tem a quarta classe, mas fez de tudo um pouco: começou a trabalhar nas obras com 11 anos, foi eletricista, serralheiro, fez limpezas no prédio da Bolsa de Londres, foi porteiro de discotecas, segurança, promotor de festas africanas, abriu desfiles de Nuno Gama na ModaLisboa. Hoje, tem dois restaurantes em Lisboa, uma empresa de eventos com o ator Nuno Janeiro, uma marca de roupa e ainda arranja tempo para trabalhar como personal trainer e modelo. Bem-vindo à vida de Tony Fox, o Rei da Cachupa. 

Chama-se António porque nasceu no dia de Santo António, há 49 anos, mas toda a gente o conhece como Tony Fox. Quando tinha 9 anos, os pais, cabo-verdianos, tiveram de trocar uma vida confortável no Saldanha por uma casa pré-fabricada no Bairro do Relógio, em Chelas, mas garante que nunca carregou o estigma por ter vivido num bairro social. É um homem dos sete ofícios que aprendeu a cozinhar sozinho, a curiosidade aguçou-lhe o engenho. Tem dois restaurantes em Lisboa e carrega orgulhoso o epíteto de “Rei da Cachupa”. Falámos no seu projeto mais recente, a Casa da Pedra, no Parque da Bela Vista, onde ocorre, a cada dois anos, o Rock in Rio. 

Qual é, afinal, o teu nome de batismo? 

Chamo-me António Bernardo Gonçalves Monteiro e nasci em Lisboa há 49 anos, a 13 de junho, dia de Santo António, então fiquei António, Bernardo é o nome do meu pai. Até aos nove anos vivemos no Saldanha, mas depois, após a crise de 1981, fomos viver para o Bairro do Relógio, em Chelas, que depois ficou conhecido como Bairro do Camboja.  

Como é que surgiu o Tony Fox?  

Surgiu quando tinha 12 ou 13 anos. Um dia vinha a passar na rua, encontrei um maço de notas no chão e, como tinha medo de o levar para casa por causa do meu pai, porque ele podia pensar que tirei de alguém, dei a um vizinho que tinha uma frutaria, disse-lhe que era para comprar gelados para os meus amigos. Então, todos os dias, quando saía da escola, ia lá e pegava numa nota de cinco ou dez escudos e comprava gelados para a malta. Um dia, ele disse-me na brincadeira: “Pareces uma raposa. És tu e as tuas crias”. A partir desse dia, os meus amigos começaram a chamar-me Raposa. Passado uns três ou quatro anos, um amigo nosso, o Miguel, que tinha estado nos Estados Unidos, perguntou-me porque é que não começava a apresentar-me como Tony Fox, porque naquela altura íamos muito ao cinema ver o “Regresso ao Futuro”, com o Michael J. Fox. Pegou e ficou assim até agora. 

Os teus pais são cabo-verdianos. 

Sim, da cidade da Praia. Começaram a namorar muito novos e tinham o sonho de vir para Portugal. O meu pai veio primeiro, com 18 anos, estabilizou-se, e um ano depois veio a minha mãe ter com ele. Eu nasci passados dois anos, em 1974, tenho quatro irmãs desse casamento dos meus pais e mais cinco irmãos de outras relações do meu pai. Ele trabalhava como construtor civil e a minha mãe era quem fazia a comida para o pessoal todo, mas veio para casa cuidar de mim depois de eu nascer. Mais tarde, quando o meu pai ficou desempregado e nos mudámos para o bairro social, ela começou a trabalhar como peixeira. Nessa altura, havia muitas mulheres africanas a vender peixe na rua, perto de Alcântara e, por vezes, chegava a casa toda cansada porque tinham andado a fugir da polícia. Quando o meu pai voltou a trabalhar, a minha mãe regressou a casa para cuidar de nós, era a típica onda cabo-verdiana na altura.  

O teu pai voltou para a construção civil? 

Voltou e sou a prova disso. Só estudei até à quarta classe, mas tenho formação de pedreiro, servente, carpinteiro, serralheiro… Quando me portava mal na escola, o meu pai metia-me nas obras durante as férias. Fui a primeira vez com 11 anos, para uns prédios em Sines, porque eu e um amigo fomos apanhados a tirar dois iogurtes na escola. Mas não me queixava, acabava por me divertir na mesma, a conhecer pessoas mais velhas, carregar baldes de massa, brincar… É nessa altura que surgem as primeiras experiências com comida. O meu pai entregava-me um saco de bacalhau, um saco de batatas, um pouco de azeite, cebolas e dizia-me: “Agora desenrasca-te”. Todos os dias fazia o meu almoço. 

Aprendeste a cozinhar em casa? 

Não, nunca tive nada disso. Começou tudo com algumas brincadeiras. Lembro-me, por exemplo, de estar em casa com os meus irmãos a tentar reproduzir um doce que comprávamos: começava a mexer, depois metia açúcar, aquilo começava a ficar corado… Foi sempre assim, a experimentar, nunca me ensinaram nada. Só muito mais tarde, quando fui para Londres, é que comecei a cozinhar a sério, porque estava sozinho e tinha de me safar. Chegávamos a casa cheios de fome, só tínhamos frango congelado e eu desenrascava algo: agarrava numa panela de pressão, metia o frango lá dentro, cortava uns legumes, deixava a uma temperatura baixa, aproveitava a água para fazer um caldo, depois punha uma pinga de vinho. Quando meto a mão em algo, acho sempre que vou conseguir fazer, é uma questão de tempo. Tenho sempre muita curiosidade de aprender. 

Como é que era a vida no bairro? 

Foi um choque talvez para os meus pais, mas para mim e para as minhas irmãs foi uma curiosidade ótima, pudemos descobrir um mundo novo e foi uma influência muito boa. Vivi sempre da mesma maneira, fosse num bairro rico ou num bairro pobre, nunca me senti à parte por termos ido viver para um bairro social. Há pessoas que ficam com a moral em baixo por viverem nessa realidade, sentem-se tratados de outra maneira, mas eu não vou por aí. Havia poucos negros, mas nunca sentimos que nos tratassem de forma diferente. Fui muito bem acolhido, como muitos outros que chegaram depois. É como digo aos meus amigos: eles são alface verde, eu sou alface roxa, sou alfacinha como eles. Nascemos cá, somos todos portugueses, nunca fui sequer a Cabo Verde. Fomos crescendo com o bairro, ensinou-me muita coisa. Naquela altura íamos à piscina dos Olivais e, como os pais nunca nos davam umas moedas, íamos às bombas de gasolina e estendíamos a mão a pedinchar umas moedas para comprar uns pacotinhos de baunilha que comíamos na piscina. No regresso a casa, passávamos em casa de uma senhora que nos dava um bocado de marmelada. Apanhei aquelas cenas de juventude lindas: brincávamos aos carrinhos de rolamentos, que me deixavam cheio de nódoas negras, depois veio a onda do skate, do iô-iô, do berlinde, do Bate Pé, que foi o que me magoou mais porque nunca tinha direito a um beijinho. Só havia uma menina, a Célia, que me dava um beijinho para não ficar triste, e já me confortava um pouco. Mas nunca senti que não me davam beijinhos por ser black.  

Eras um miúdo atinado? 

Fui sempre, nunca dei dores de cabeça aos meus pais. Mesmo hoje, no bairro, todos gostam muito de mim. Quando a droga entrou em força no Camboja, nos anos 80, mantive-me sempre à margem disso. 

A escola não te dizia nada? 

Nunca me interessou muito, só estudei até ao quarto ano. Nunca soube muito bem qual seria o meu destino, mas já fui muitas coisas na vida porque tive sempre a ansiedade de querer fazer coisas, nunca consegui estar parado: fui eletricista, serralheiro, porteiro em discotecas, segurança, PT… Havia sempre coisas novas a aparecer e consigo adaptar-me muito bem. No Fox Coffee – O Rei da Cachupa, fui que montei todas as coisas em inox, fiz as ligações elétricas, só não pintei as paredes porque tenho um amigo que pinta muito melhor do que eu. 

Com que idade foste para Londres? 

Tinha 28 anos. Na altura, tinha uma namorada inglesa que ficou amiga da minha irmã mais nova. Começou a dizer-lhe que ela tinha lá melhores condições para estudar e ela agarrou nas botas e foi. Três meses depois fui lá visitá-la, era só para passar umas férias e lhe dar algum apoio, mas o tempo foi passando e fui ficando. Vi que havia oportunidades de trabalho diferentes e gostei muito da maneira britânica, muito à vontade, muito focada e muito educada também. Acabei por ficar dez anos. 

O que fizeste lá durante esse tempo? 

Ao início dependia de uns amigos. Depois fui trabalhar para um hotel, lavava talheres de prata, mas havia um espanhol que estava sempre a implicar comigo e desisti ao fim de 15 dias, não estava preparado para aquela pressão toda. Liguei para um primo meu e ele arranjou-me uma casa fora da cidade que era de uma amiga dele e estava vazia. Fiquei lá dois meses, sozinho, num 15º andar, era raro ter contacto com pessoas. Comia, treinava e ia contando as minhas moedas, porque tinha de poupar bem. Comprava um frango e arroz, e aquilo dava-me para quatro dias. Um dia, essa amiga e o namorado dela foram buscar-me para irmos a uma festa africana e acabei por encontrar lá uns amigos que viviam num bairro chamado Forest Gate e fiquei a saber que também lá estava uma prima minha. Fui viver com ela e um amigo arranjou-me emprego a fazer limpezas no prédio da Bolsa, na Liverpool Street. Foi onde aprendi o que era disciplina. Trabalhava lá um português, o Pedro, que certa vez me disse assim: “Sabes porque é que os ingleses são bons e os portugueses estão a anos de distância? Os portugueses chegam sempre atrasados ao trabalho e aqui as pessoas chegam bem antes. Assim têm tempo para tomar o seu café, pôr a conversa em dia e, se começam a trabalhar às 8h, a essa hora começam a bombar. Aquilo ficou-me e comecei a ir mais cedo para o trabalho, a disciplina mudou a minha mente. Mais tarde, fui trabalhar como segurança em discotecas africanas e rapidamente comecei também a organizar as minhas próprias festas, levando a Londres artistas como o Nelson Freitas, os Irmãos Verdades ou o Tito Paris. Sentia-me muito bem lá, as coisas estavam a correr-me bem, mas a minha mãe adoeceu e vim cuidar dela. Estava de casamento marcado, mas larguei tudo e voltei, não podia deixá-la sozinha. Mas foi em Londres que comecei a cozinhar mais, a fazer a minha feijoada, comida de forno, mas não posso dizer que achasse que a culinária era a minha cena. Nunca soube bem o que queria fazer. 

Foi em Lisboa que começaste a trabalhar como modelo? 

Foi. Cheguei a Portugal e não havia as mesmas oportunidades que tinha em Londres, por isso fui-me abaixo um bocado. A minha irmã Sandra, que gere vários McDonald’s na baixa de Lisboa, precisava de um segurança no restaurante do Rossio, pagava uns 600 euros para eu trabalhar de sexta a domingo, muito pouco comparado com o que ganhava em Inglaterra, mas precisava de comprar as minhas coisas porque deixei tudo em Londres, e precisava de ajudar a minha mãe, então aceitei. Depois dava umas aulas de fitness e passava o tempo a correr, era de certa forma como se estivesse a correr atrás do tempo perdido. Passo a passo, acabaria por chegar onde queria e foi assim que me fui motivando. Um dia estava no Centro Comercial Vasco da Gama e cruzei-me com um amigo meu e a irmã dele, que trabalhava no mundo da moda. O irmão contou-lhe a minha história, que tinha deixado Londres para cuidar da minha mãe e ela quis ajudar-me. Nunca tinha visto um black com a minha pinta e acreditava que podia ter sucesso como modelo. Fui a umas agências e um dia recebi uma mensagem no Facebook a desafiar-me para ir a um casting para o desfile do Nuno Gama na ModaLisboa. Ela lá me convenceu a ir e, quando lá cheguei, o Nuno pediu que vestisse umas roupas e já não quis ver mais ninguém. Dois dias depois estava a abrir o desfile dele na ModaLisboa, a suar em bica porque nunca tinha estado num ambiente daqueles. Na hora de entrar, bloqueei por completo, a Fernanda Serrano até me deu um berro para eu arrancar. Desde então, só desfilei para o Nuno Gama e só trabalhei com a L’Agence, e agora tenho uma parceria com uma nova marca americana. Não é que tenha feito muito dinheiro com a moda, mas deu-me este lado mais criativo que tenho hoje. Criei até uma marca de roupa, a Hyperchac, e o meu sonho é fazê-la crescer.  

No meio dessa montanha-russa como é que aparece a cachupa? 

Tive uma ex-namorada que estava sempre a dizer-me que eu tinha muito jeito para cozinhar e devia abrir um negócio. Um dia fui ao bairro e perguntei a um amigo se me podia arrendar um espaço que havia lá. Era uma renda barata e comecei a pôr mão naquilo, a pintar o espaço, a decorá-lo, uns amigos juntaram-se para ajudar. Tinha tudo tapado para que as pessoas não vissem o que estava a fazer, queria surpreendê-las. Abri no dia 25 de dezembro de 2016, às 7 da manhã. Reduzi as aulas de fitness que estava a dar e comecei a dedicar-me mais ao café, chamei-lhe Fox Coffee – Comida Típica. Na altura não tinha cachupa, mas fazia as minhas feijoadas e outras comidas portuguesas. Estava sempre cheio, ao domingo trazia uma banda para tocar para a comunidade. Quando jogávamos à bola, os meus amigos estavam sempre a pedir para fazer cachupa, só que eu não sabia fazer, então falei com o meu tio e foi ele que começou a fazer a cachupa que passei a servir no café uma vez por semana. Um dia foi uma prima minha a fazer só que esqueceu-se de lavar a carne de porco e a cachupa ficou demasiado salgada, foi uma grande barraca. Então, a minha mãe disse-me: “Faz tu”. Deu-me umas dicas, como, por exemplo, em vez de deixar o milho na água durante a noite, cozê-lo durante três horas e usar depois a água para fazer o caldo do refogado da carne. E lá comecei de novo com a cachupa, às quartas-feiras, e fui reinventando a receita aos poucos. Por exemplo, punha cinco variedades de feijão diferentes. Em 2019, o Sporting jogou a final da Taça de Portugal e fui para o Jamor servir cachupa, para não haver só bifanas e sopa. Às cinco da manhã comecei a servir e, aos poucos, foi-se juntando gente, passados 45 minutos já não havia, tive de fazer outra para o almoço. Passado uma hora, também acabou. Passei todo o dia a servir e estava lá um rapaz, que hoje é meu amigo, o Leo, que disse assim: “Mano, para mim és o rei da cachupa. É a melhor cachupa que já comi”. 

E foi assim que nasceu o Rei da Cachupa.  

Que foi o nome que dei depois ao novo espaço junto à Praça do Chile, Fox Coffee – Rei da Cachupa. Descobri-o um dia que fui jantar fora com uns amigos, estava fechado. Ficava numa esquina, fazia um V de vitória, tinha cinco portas. É muito difícil fechar cinco portas; se fechas uma, abres logo outra. Senti logo que aquele espaço era para mim. Abrimos a 19 de setembro de 2019, numa noite de lua cheia, porque nós, africanos, temos estas coisas.  

Quiseste tirar a cachupa do bairro.  

A cachupa é um prato típico de casa cabo-verdiana, de restaurante familiar, mas quis elevá-la e reinventá-la, num restaurante mais moderno. Comecei com a cachupa de carne, a refogada e a de frango, depois veio a de atum, vegetariana, vegan, de cabrito, borrego, frango do campo, bacalhau, marisco, e agora a última é de polvo. Criei também durante a pandemia um prato a que chamei coração de cachupa, que vem dentro de uma couve lombarda. Cabo Verde tem 10 ilhas e cada ilha faz uma cachupa diferente. A minha é a 11ª, a do continente. Tinha 11 variedades de cachupa, agora, com a de polvo tenho 12, se contar com o coração de cachupa são 13. As pessoas têm curiosidade de novidade e é isso que lhes sirvo. A cachupa é um prato lindo e apetitoso, e abriu-se ao mercado. De repente, até há no Centro Comercial Colombo. 70% dos meus clientes são portugueses. Seja rico ou pobre, toda a gente entra ali. 

E o projeto na Casa da Pedra, no Parque da Bela Vista, como surgiu? 

Lembro-me de, há quatro ou cinco anos, quando começaram a construir este espaço, ter pensado: “Isto é que era uma grande cena para mim”. Foi conhecida como a Casa do Rock in Rio, mas no final do ano passado surgiu a oportunidade de pegar nisto e agora toda a gente fala na Casa da Pedra. Estamos abertos como restaurante e para eventos. Temos massas italianas, temos pizzas, temos cachupa de carne e refogada durante a semana e, ao sábado, temos um buffet de cachupas. As pessoas pagam 15 euros por cabeça e podem comer várias.  

Quase a chegar aos 50, pode dizer-se que já encontraste o caminho que querias seguir? 

Não, continuo à procura, a vida é um pouco essa descoberta constante. Nos próximos anos, o que gostava mesmo era de estabilizar os meus negócios, lançar a minha marca de roupa, crescer a empresa de eventos que tenho com o Nuno Janeiro. E, com tudo estabilizado, comprar uma casa para a minha mãe, ter a minha casinha, uma mulher, um filho. 

NOTA: Este artigo foi publicado originalmente na revista INTER Magazine e é da autoria de Nélson Marques.

Foto: Humberto Mouco

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