liquid love

Liquid Love: o cocktail bar de Cheila e Semi

Cheila Tavares e Semi M’Zoughi conheceram-se em Londres. Até então, ela tinha trabalhado na área da comunicação e ele já tinha experiência em restauração. Foi num bar que surgiu a paixão entre ambos e pelo mundo dos cocktails. Após juntos passarem por alguns dos bares mais criativos da capital londrina emigraram para a Austrália, onde ganharam novos conhecimentos e experiência. Em 2018 aterraram em Portugal com um propósito: o de abrirem o seu próprio bar.

Lisboa já era a cidade natal de Cheila, filha de pais africanos. Por sua vez, Semi, um ítalo-tunisino, rapidamente se apaixonou pelo melting pot que caracteriza a capital portuguesa e logo o casal começou a entrar no mundo do bar em Portugal, acumulando experiências em bares de cocktelaria como A Toca da Raposa e o bar pop up Tutti Frutti.

No final de 2022, o casal deu finalmente asas ao desejo mútuo de ter um espaço onde pudesse exprimir as suas respetivas culturas e vivências a partir de receitas em estado liquido, com uma oferta de cocktails a partir de ingredientes locais e com técnica, e uma carta de snacks inspirada na cozinha italiana.

Falámos com os responsáveis para saber mais sobre o seu trabalho no bar Liquid Love, aberto em Arroios, Lisboa.

Após um percurso por bares nacionais e internacionais, como é que vocês chegam a Lisboa?

O Semi foi viver para Londres em 2011, com 20 anos, e começou logo a trabalhar em hospitalidade. Passou por duas cozinhas – uma das suas grandes paixões é cozinhar – antes de decidir enveredar pelo mundo da cocktelaria. A partir daí, as experiências em bar foram-se acumulando e a sede pela mixologia foi crescendo e surgiram oportunidades para trabalhar em bares renomados com programas de cocktails avançados. Ainda esteve um ano na Austrália, altura em que a paixão pelo bar apenas cresceu e ao voltar para Londres, começou a pensar em abrir as asas e vir para Portugal com o objetivo de abrir o próprio bar.

Já eu, licenciada em Comunicação, decidi emigrar aos 24 anos, descontente com as condições laborais na minha área. Sempre estive ligada ao setor, por causa da minha família, e por isso foi fácil ir trabalhar para um cruzeiro como bartender. Após essa experiência, decidi mudar-me para Londres e tive a oportunidade de trabalhar em bares fantásticos onde o bichinho da coquetelaria foi crescendo exponencialmente. Conheci o Semi no primeiro bar onde trabalhei em Londres e ele convenceu-me a ir para a Austrália com ele, onde pude desenvolver o meu conhecimento de cocktails clássicos e trabalhar com uma cultura de bar completamente diversa da Europeia e com ingredientes diferentes. Retornados a Londres, a oportunidade de trabalhar em bares com os seus próprios laboratórios foi uma rampa de lançamento para o tipo de bartenders que hoje somos e a maneira como trabalhamos o produto.

Em 2018 vimos uma oportunidade em ir para Lisboa abrir um bar nosso que foi sempre um objetivo, no entanto queríamos primeiro conhecer o mercado português porque até então, só tínhamos tido experiências em hospitalidade lá fora. O Liquid Love foi o resultado de muita procura após os tempos incertos que vivemos durante a pandemia e, uma vez mais, um desejo que tínhamos há vários anos. Finalmente encontramos o espaço ideal em Arroios e abrimos a 1 de Novembro de 2023, depois de dois meses e meio de construção.

Ambos cresceram com a influência de diversas culturas. Como é que isso se reflete no conceito do bar?

O conceito do Liquid Love nasce da influência de ambas as nossas culturas, das nossas memórias e experiências à volta do mundo. O Semi é ítalo-tunisino e eu sou portuguesa com raízes africanas e procuramos transmitir essa multiculturalidade através dos nossos cocktails e dos nossos pratos.

Uma das nossas maiores paixões é cozinhar, comer e viajar, por isso também procuramos utilizar influências de pratos, viagens e ingredientes que nos marcaram. Felizmente, Lisboa é um melting pot de culturas e, bem à porta do nosso bar, temos um dos bairros mais multiculturais do país, o que nos dá acesso a uma miríade de ingredientes que adoramos explorar.

Como descreveriam em duas palavras os cocktails que fazem?

Diria “passionate” e “storytelling”. No Liquid Love, damos preferência à utilização de ingredientes frescos como fruta, legumes e ervas aromáticas, assim como, especiarias utilizadas nas nossas tradições gastronómicas e de outras culturas pelas quais somos apaixonados. Fazemos os nossos próprios destilados e por isso não é incomum encontrar ingredientes menos convencionais como queijos, gorduras, flores e outros produtos cuja extração de sabor é mais difícil.

Fala-nos de dois cocktails que tenham atualmente na carta e respetivas inspirações.

Destaco dois que têm muito a ver com o que queremos passar com o Liquid Love. Primeiro, o Night in Tunísia, que é um cocktail inspirado por alguns sabores tunisinos como o Ras al Hanout, um blend de especiarias utilizadas na confecção do couscous tunisino com componentes como o cravinho, o cardamomo verde, o gengibre, a canela, a pimenta, a noz-moscada, a paprika e o açafrão. Na preparação, fazemos uma infusão de tequila com Ras al Hanout, juntamos um toque de mezcal, um destilado de chilli amarelo que fazemos dentro de portas e ainda lima e um xarope caseiro de figo da Índia – um fruto muito consumido na Tunísia. Este cocktail é evocativo de um dos pratos favoritos do Semi, o couscous, cozinhado na perfeição pela mãe, além de despertar as suas memórias dos verões passados na Tunísia.

O segundo cocktail é o Morabeza, inspirado por alguns sabores de Cabo Verde que estiveram bastantes presentes na minha infância. Esta bebida leva na sua composição o grogue que é o rum de Cabo Verde feito a partir de cana-de-açúcar, um xarope caseiro de coco tostado inspirado num doce típico chamado cocada, licor de banana e ainda uma soda caseira de folha de figueira – que é um dos meus ingredientes favoritos e um piscar de olhos à cultura portuguesa e a imensidão de figueiras que temos no nosso território.

O bar destaca-se por ter também um conceito de comida associado, com uma carta de snacks a puxar mais o lado italiano do Semi, verdade?

Ambos temos uma paixão grande por comida italiana. Gostamos da sua simplicidade, elegância e apreço pela qualidade do produto e é isso que queremos transmitir na nossa carta de snacks. A nossa ideia agora é apresentar pequenos pratos inspirados na cozinha italiana e no futuro continuar a desenvolver a carta com a inclusão de produtos portugueses e ingredientes da diáspora africana, sempre com a alma e hospitalidade italianas em mente – que é uma das melhores do mundo!

Alguns dos pratos que já se tornaram favoritos dos nossos clientes são: Anchovy Bites, uma focaccia caseira com uma salsa verde de pistachio, creme de ricotta e mascarpone, anchovas italianas e raspa de limão; Panino con la Mortazza, uma sandes de focaccia caseira, pesto de pistachio, queijo stracciatella, pistachio triturado e mortadella de pistachio italiana; e também Straciatella Salad, um prato que vamos modificando segundo a disponibilidade dos produtos da época. O elemento comum é sempre o queijo stracciatella que serve de base e neste momento o topping é salada de laranja portuguesa, pickle caseiro de cebola roxa, pimento vermelho, alcaparras e salsa fresca.

Como olham para o panorama do mundo do bar em Portugal?

Desde que chegámos a Lisboa, em 2018, até agora, temos notado um crescimento um tanto ou quanto exponencial não só na oferta de bares como nos conceitos de bar. Há também mais abertura por parte do público português a experimentar cocktails. Lembrando que até há pouco tempo as bebidas de preferência eram a cerveja e o vinho. Lisboa começa a estar no mapa como destino de cocktail lovers com ofertas para todos os gostos, o que é super positivo para nós, bartenders, que tanto trabalhamos para ver esta craft mais valorizada.

A previsão é que o mundo do bar continue a crescer e a ganhar uma identidade própria. A verdade é que Portugal pode ter demorado a chegar lá mas o sangue novo da coquetelaria portuguesa tem vontade de ir mais longe e inovar. Por isso, é com gosto que vemos esta comunidade a fazer coisas cada vez mais bonitas.

Onde é que o Liquid Love se quer encaixar nessa Lisboa que falas?

Queremos obviamente que o Liquid Love se torne um ponto de referência na cidade para quem procura cocktails e uma boa oferta gastronómica, uma vez que os nossos produtos são maioritariamente feitos por nós, desde a focaccia aos destilados.

Acima de tudo, queremos destacar-nos como um espaço acolhedor onde as pessoas possam experienciar bons cocktails, vinhos de qualidade, boa comida e hospitalidade. Também ser um espaço em que se possa conversar, algo que sentimos ser difícil em vários bares em que a música muitas vezes se sobrepõe e corta o aspeto socializador que todos estes espaços deveriam proporcionar.

Têm alguma novidade para o próximo ano que possas desvendar?

Para já, o foco é continuar a desenvolver a oferta do Liquid Love. Está nos nossos planos futuros criar a “Love Deli” para começar a vender a nossa focaccia e outros produtos que estamos a desenvolver e também charcutaria em modo take away, assim como os nossos cocktails e produtos engarrafados.

Outros dos projetos para o futuro próximo será receber clientes ao almoço de domingo para a “Tavolata” (“grande mesa” em italiano). Este é um evento criado à volta de uma única mesa comum, com menus temáticos de comida e pairing de cocktails. No fundo, é a nossa forma de juntar pessoas à volta dos nossos dois assuntos favoritos: a gastronomia e os cocktails.

Foto: Liquid Love

Morada:
Liquid Love
Rua do Desterro, 5. Lisboa
Aberto de quarta-feira a domingo, a partir das 18h.

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