Entrevista Inês Silva Azevedo

Portugal soma exemplos de jovens bem sucedidos pelo mundo fora. Inês Silva Azevedo é um deles, tendo conquistado na Eslovénia o lugar de chefe de cozinha do novo Ana de Ana Roš, a chefe estrelada que serve de inspiração a muitas mulheres. 

Natural de Santa Maria da Feira, Inês nasceu em 1993. Tirou o curso de cozinha no Porto e, inicialmente, trabalhou em Portugal, no Cantinho de Avillez, no Porto, no 100 Maneiras, em Lisboa, e em outros restaurantes no Algarve. Apesar de muito jovem, cedo percebeu que havia um caminho a desbravar no estrangeiro. Candidatou-se a um estágio no Mugaritz e foi aceite. Fez as malas e voou para o País Basco rumo a este restaurante Michelin, onde esteve oito meses. “Foi muito desafiante sair de Portugal, da minha zona de conforto, e viver sozinha num país que não conhecia, numa cultura diferente”, explica Inês, classificando como “muito gratificante” este tempo de aprendizagem num dos melhores restaurantes do mundo. “O chefe Andoni é uma pessoa espetacular e com um conhecimento sem fim!”, elogia. Já no final do estágio, Inês foi convidada a ficar mais tempo, contudo, um outro convite para abrir o 100 Maneiras trouxe-a de novo para cá. Vários contratempos acabaram por atrasar a inauguração do restaurante e a jovem acabou por trabalhar só no bistrô 100 Maneiras e no antigo 100 Maneiras. 

O grande salto aconteceu em 2018. Numa altura mais incerta da sua vida, a mãe de Inês mostrou-lhe uma revista onde estava a chefe eslovena Ana Roš. Há coisas que parecem inexplicáveis e que, no entanto, estão muito visíveis ao olhar e assim foi com Inês. Ana Roš era uma referência feminina na cozinha que servia de inspiração a muitas mulheres. “Eu estava bastante em baixo e ler aquela entrevista, na altura, encheu-me de esperança. Quando percebi que estavam à procura de pessoas para a cozinha, pensei: e porque não?” De malas novamente feitas, Inês partiu para a Eslovénia, “um pequeno país onde, antes, nem saberia localizar no mapa”.  

De início foram duas semanas de teste no Hiša Franko, em Kobarid, que logo se converteram numa proposta para ficar. “A chefe Ana, naquela altura, ainda tinha uma vida tranquila e trabalhava connosco, todos os dias, na cozinha. Aprendi imenso com ela”, conta. O restaurante, que era familiar, começou a tornar-se conhecido mundialmente graças a um dos primeiros episódios da série documental Chef’s Table, disponível no Netflix. Em 2017, Ana Roš foi eleita a melhor chefe mulher do mundo pelo The World’s 50 Best Restaurants e, em 2020, arrecadou duas estrelas Michelin (e uma verde) com o seu Hiša Franko, na edição inaugural do guia da Eslovénia. Este ano, ganhou a 3ª estrela Michelin, a aspiração máxima que um/uma chefe de cozinha pode receber no seu restaurante. Se o reconhecimento aumenta, as expetativas também e, consequentemente, o trabalho. “A exigência tornou-se muito grande, tudo tinha de estar perfeito”, refere Inês. “É preciso ter muito foco e saber o que se quer, porque as saudades da nossa família e do nosso país também são muitas!”  

Por motivos pessoais, Inês acabou por deixar a Eslovénia e candidatou-se a um estágio em Copenhaga, que considera ser “o destino de sonho de qualquer chefe”. O covid atrapalhou os planos e, enquanto esperava respostas, aceitou trabalhar três meses numa hamburgueria. “O país estava fechado e só fazíamos take-away, estava todo o dia a fritar hambúrgueres e batatas fritas”. Sem persistência dificilmente se avança e, como essa qualidade nunca lhe faltou, Inês acabou por ter a experiência de um ano no Geranium. O regresso à Eslovénia, contudo, foi inevitável. “Mantive-me sempre em contacto com colegas de trabalho e com a Ana e, às tantas, ela ofereceu-me o cargo de subchefe no bistrô Ana in Sloan que iria abrir em fevereiro de 2022”. Inês foi viver então para Liubliana e abriu Ana in Slon, um restaurante pop-up, informal, baseado na vida rural e agrícola, local, sazonal e sustentável, com pratos da chefe eslovena, mas também com o cunho de Inês e do colega colombiano. “Nos últimos tempos, a Ana passou a ter muitos outros projetos e, por isso, sou eu e o meu colega que tomamos conta do espaço. Temos liberdade para criar. E, portanto, já coloco aqui um bocadinho da cozinha portuguesa que, por coincidência, tem alguma coisa da colombiana”.  

Ana in Slon foi temporário e, em outubro, o restaurante Ana abriu as portas no espaço definitivo, “um forte investimento candidato a uma Estrela”. O Ana partilha da filosofia do Hiša Franko: homenagear e destacar o melhor da natureza e produtores locais, com ênfase na sazonalidade. “Trabalhamos com os produtos da padaria da Ana e também com a horta do Hiša Franko; posso dizer que tudo o que usamos vem das montanhas. Há pessoas que conduzem duas horas por dia para trazerem-nos produtos!” Neste novo espaço, Inês foi promovida a chefe de cozinha. “É uma grande honra”, afirma a, agora, chefe e, claro, o resultado de muita dedicação ao trabalho. “Não foi fácil chegar aqui! A Ana é uma pessoa muito exigente, que eu admiro muito. E sei que tenho uma grande responsabilidade nas costas”. 

Ser mulher e chegar a chefe de cozinha deixa Inês ainda mais orgulhosa. “As chefias na cozinha são dadas geralmente a homens por se considerar que eles são mais capazes, mas não é verdade. Felizmente, nós, mulheres, estamos a mostrar que somos tão competentes como eles para liderar, seja em que área for.” Apesar da sua história inspiradora, a jovem chefe, confessa que, por vezes, se sente “triste” com estas questões de sexismo e discriminação. “Há muitos colegas que me admiram pelo trabalho que faço e estar a vingar numa área dominada por homens, mas também há dias em que me sinto triste por colegas, de culturas diferentes, não me respeitarem tanto por ser mulher! Mas, enfim… é não baixar os braços.” E se alguém sabe o que é lutar pelos sonhos é Inês Silva Azevedo. Aos 30 anos, esta “mulher do Norte” é um exemplo de como é possível as mulheres entrarem nas cozinhas dos restaurantes mais prestigiados de mundo, subirem naturalmente de posto nas suas carreiras e chegarem aos lugares de topo.  

NOTA: Este artigo foi publicado originalmente na revista INTER Magazine e é da autoria de Sónia Alcaso.

Foto: Humberto Mouco

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