coral colectivo

Coral Colectivo

É um exemplo na cidade de Lisboa. Entre gastronomia e eventos culturais, este espaço defende os valores democráticos, os direitos humanos, os direitos das minorias e da luta contra as discriminações, tendo como objetivo potencializar cada vez mais uma força comunitária e a sua capacidade de resistência. 

Com portas abertas há um ano, o Coral Coletivo é um projeto que defende os direitos de cidadania relativamente à defesa e aceitação da igualdade de género e inclusão. “Praticamente tudo que conseguimos construir coletivamente até aqui, está apoiado não só numa força comunitária que se deve a princípios e práticas para garantir visibilidade e representatividade para mulheres, pessoas trans e não-binárias na nossa curadoria, mas também na construção de uma vivência segura em espaços públicos e de sociabilidade, condição indispensável para qualquer exercício de cidadania”, explica Thiago Rocha, da Valsa, uma das marcas (pizzas de fermentação natural) que se juntou às cervejas artesanais da ArtesanaLis e às massas frescas e secas feitas à mão do Café Mortara e, unidas, criaram um espaço cultural e gastronómico inclusivo, junto à rua da Graça. Exemplo a seguir como forma de refletir e agir no âmbito dos direitos de cidadania, o Coral Coletivo não pretende, contudo, sensibilizar a população, mas sim envolvê-la ativamente na causa. “Procuramos sobretudo a defesa de princípios e direitos tendo como objetivo potencializar cada vez mais essa força comunitária e sua capacidade de resistência”, refere Thiago. O Coral Coletivo quer ser um espaço “seguro e de quebra de padrões e ideias pré-concebidas pelo senso comum”, acrescenta Martha Varella, da ArtesanaLis. “O nosso trabalho é garantir que dentro da nossa casa, e em todos os espaços que viermos a ocupar, os direitos básicos sejam cumpridos, isto é o mínimo que deve ser priorizado em qualquer negócio”, assegura a jovem empresária.  

Em Portugal, o direito que qualquer pessoa deve ter à autodeterminação da identidade de género e de orientação sexual nem sempre é bem aceite. “Com certeza ainda há muita discriminação”, afirma Letícia Mendes, do Café Mortara, manifestando-se (e falando em nome do Coletivo) totalmente contra tratar uma pessoa de forma diferente simplesmente por ela ser quem é. “Todos os dias fazemos de tudo para que todas as pessoas LGBTQIA+, principalmente, se sintam confortáveis no nosso espaço. Aliás, como deveriam se sentir em todos os espaços. Um ambiente seguro faz toda a diferença quando se é uma pessoa discriminada pela sociedade.” 

Também a desigualdade profissional entre mulheres e homens foi um tema abordado com a equipa do Coral Coletivo. Marina Ginde, da Valsa, acredita que a desigualdade de trabalho ainda está muito presente, não só em Portugal, mas no mundo inteiro. “As mulheres continuam a receber ordenados menores e a ocupar menos cargos no mercado de trabalho do que os homens, mesmo tendo as mesmas ou melhores qualificações.” Trabalho igual, salário igual, pensa-se. E a lei até existe, mas não é respeitada por muitas empresas que preferem manter uma cultura de discriminação. Mas, afinal, porque é que se pagam ordenados diferentes a homens e mulheres que desempenham as mesmas funções? “Existem diversos fatores entremeados à disparidade no mercado de trabalho, como as responsabilidades domésticas e a maternidade, mas isso é uma discussão muito longa e complexa”, responde Marina, afirmando que, no contexto do Coral Coletivo – cultura e gastronomia – o cenário é o mesmo. “Apesar de achar que existem muitas mulheres a trabalhar com produção cultural, percebo que, em cargos de direção e áreas técnicas, não é a mesma coisa. Na gastronomia sinto que existe uma hipocrisia sobre a participação das mulheres: elas são aptas a ocupar a cozinha doméstica e alimentar a família, porém, no âmbito profissional, ainda existe resistência.” A comprová-lo, estão os restaurantes estrelados, a maioria liderados por homens. “A mulher é cozinheira e o homem é chefe”, conclui Marina. 

Relativamente ao balanço de um ano de abertura, Pedro Mendes, da ArtesanaLis, declara que é “altamente positivo”. “Apesar de algumas dificuldades e alguns atritos por sermos sete pessoas e três negócios diferentes, no final a força, a criatividade e a complementação que ganhamos é muito maior.” O interessante é que essa interação estendeu-se por toda a comunidade que “não apenas frequenta o Coletivo, mas também o faz”. Artistas, negócios e pessoas que são clientes participam igualmente com produtos, eventos e concertos. “Essa coletivização com a comunidade é a nossa grande vitória neste primeiro ano de existência e a certeza de que estamos no caminho certo”, afirma Pedro.  

Em 2023, o Coral Coletivo irá continuar a agradar aos paladares, até aos mais exigentes. “A gastronomia de Portugal é muita rica. É impressionante o receituário tradicional, a variedade e qualidade de ingredientes autóctones”, afirma Vitor Mortara, do Café Mortara. No menu, o modelo sazonal fixo, pensado para acompanhar cada época do ano, com cerca de oito pratos de pastas frescas (Café Mortara) e oito sabores de pizzas (Valsa), irá ser mantido, mas haverá outras novidades, como também nos revela Nika, da Valsa: “Também vamos incrementar o nosso menu de petiscos, trazendo opções que harmonizem ainda mais com as variedades de cervejas artesanais (ArtesanaLis) que temos à venda. A cerveja artesanal, que sempre foi um dos produtos principais do Coral, também será um dos focos de 2023.” Já a programação cultural (Valsa) para o ano continua “robusta e diversa”. “Temos novas parcerias externas e algumas ações já programadas para acontecer fora do nosso espaço, como pop ups e ocupações, a começar no primeiro semestre, por isso vale acompanhar as nossas redes sociais para ficar a par de tudo”, aconselha Nika. 

Para estes jovens empresários o futuro mostra-se “brilhante e promissor”, como define Vitor. “A presença de imigrantes tem acelerado a modernização da cozinha, incorporando novas referências sem deixar de lado o que temos de bom em Portugal”, refere o jovem, não escondendo o seu orgulho na contribuição que o Coral Coletivo tem dado também para a gastronomia contemporânea, marcada pela união de elementos de várias tradições e culturas. Missão cumprida.  

NOTA: Este artigo foi publicado originalmente na revista INTER Magazine e é da autoria de Sónia Alcaso.

Foto: Humberto Mouco

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