Adega de S. Nicolau, uma casa de memória 

Será inevitável que falar com Renata Coelho, a atual responsável pela Adega de S. Nicolau, situada na zona da Ribeira portuense, seja também falar sobre António Coelho. Se o falecido pai de Renata era uma instituição na restauração da Invicta, a sua memória e o seu legado permanecem. A certa altura, os caminhos dos dois pareciam ter-se separado, após um início de vida em que a filha passava as férias, os fins de semana e os feriados a ajudar o pai. Tirava cafés, falava com os clientes… Ao entrar na faculdade, Renata quis perceber aquilo que poderia ser, num mundo além da restauração. Tirou um curso de serviço social, foi trabalhar na área, mas as voltas do destino levaram-na até à gestão de um refeitório social. Voltou a estudar para completar uma pós-graduação e, após anos a recibos verdes, recebeu uma proposta de contrato de trabalho. Então, perante o ordenado proposto à filha, António Coelho disse-lhe que precisava dela. Ele lhe daria trabalho e vencimento compatível com as responsabilidades. E se Renata Coelho adorava as suas funções enquanto assistente social, a verdade é que também adorava a restauração. E o pai, claro. Renata Coelho entrou definitivamente para a Adega de S. Nicolau em 2013; não tardou a que pai e filha abrissem mais dois restaurantes, A Taberna dos Mercadores e o Terreiro. A Adega, porém, manteve-se o centro de tudo. 

Quem conheceu o pai de Renata diz-lhe que ela é “muito Coelho”. Em 2016, após o diagnóstico de leucemia que dava ao pai seis meses de vida, os dois viram-se um dia sentados numas escadinhas, a pensar no futuro dos restaurantes. «Pai, que é que achas que eu ainda preciso de saber, para fazer isto?», perguntou Renata. António respondeu que só lhe era necessário ser menos mole na gestão dos funcionários, postura certamente herdada da formação em assistente social. O resto estava lá. A filha sabia de gestão, serviço de copa, serviço de mesa, montava esplanadas, cozinhava. Tinha atenção aos detalhes e sensibilidade para os sabores tradicionais. A comunicação entre pai e filha, até na elaboração de uma ementa para os novos restaurantes, surgia fácil e espontânea: ambos gostavam de comer e comungavam a mesma ideia da comida de conforto, da importância da hospitalidade, de fazer tudo para que o cliente se sentisse bem. António Coelho, à frente do seu restaurante, tocava as pessoas, fossem clientes de uma vez por ano ou clientes de todas as semanas. «Apesar do feitio mais cru, aparentemente rude, era muito sensível», recorda Renata. Um cavalheiro que saudava as senhoras com um levantar do chapéu que raramente tirava. A contrastar, nos pés, muitas vezes, a informalidade de umas sandálias de borracha cor-de-laranja.  

O atual logotipo da Adega de S. Nicolau mostra o perfil de António Coelho, desenhado por um cliente muito querido da casa, mestre Armando Alves, que traçou o esboço do anfitrião, com o seu costumeiro bigode, numa das toalhas de papel que então ainda se usavam na Adega. Em 2012, no finalizar de umas obras, colou-se a imagem do perfil na porta de vidro, para evitar acidentes; os cartões de visita assumiram o mesmo desenho. Era, de certa forma, uma remodelação do antigo, à semelhança do que acontecia com o espaço. Na antiga adega só havia uma casa de banho, o que incomodava António Coelho. Fazia impressão ao proprietário que uma senhora tivesse de usar a mesma casa de banho, após lá ter estado um cavalheiro. Uns clientes habituais, arquitetos de profissão, ficaram de delinear o acrescento de uma casa de banho. O projeto, rapidamente, alastrou à cozinha e à sala. Tudo se tornou mais funcional e confortável, sem precisar de mudar de espaço. 

A localização do restaurante, aliás, sempre foi chamariz para muitos turistas. Antes da pandemia, Renata Coelho sentia bastante a frustração dos clientes portugueses, quer os habituais, quer os passantes. Desabafos de alguém que vinha de visita ao Porto e desejava ir à Adega, mas encontrava-a ocupada por turistas. Renata, porém, não podia rejeitar quem lhe aparecia primeiro. “Precisamos do cliente como de ar para respirar”, costumava dizer-lhe o pai. Um restaurante é um negócio; não se pode fechar uma porta aberta. Ainda assim, sensível às frustrações dos clientes portugueses, Renata idealizou uma solução de compromisso. Desde há cinco anos que a Adega tem serviço contínuo. A cozinha abre ao meio-dia e fecha por volta das 22h30. Desta forma, arranjaram-se turnos que acomodam vários tipos de clientela. Há diversidade nas preferências da hora para se comer. Quando o turismo estava em alta, os clientes sul-coreanos já faziam fila à porta ainda antes do meio-dia. Os portugueses apareciam a partir das 13 horas. Às 15, vinham italianos, espanhóis, brasileiros. Às 17, norte-americanos… Para o jantar, Renata optou por pré-reservar uma outra slot, até um certo limite temporário, para clientes habituais que acabassem por aparecer. António Coelho não era grande defensor das reservas, devido aos no-shows, mas Renata contra-argumentava. Se um cliente habitual viesse de propósito à Ribeira, só para jantar na Adega, era justo que tivesse de esperar muito tempo por uma mesa? Era preciso tentar que os habituais tivessem sempre lugar, através de uma simples reserva. E a estratégia deu frutos. «Após a reabertura de maio de 2020, os clientes do costume estavam de volta.» Sabedores de terem o seu lugar.  

Renata Coelho não aposta num website para a Adega por considerar tratar-se de um meio pouco flexível; as fichas estão todas no imediatismo do Facebook e Instagram, a permitir outro tipo de proximidade. «Temos clientes que nos visitam uma vez por ano, por serem emigrantes», caracteriza Renata. As páginas nas redes sociais ajudam a manter aberto o canal de comunicação. Reservas, no entanto, só por telefone, para maior controlo. Era frequente que as pessoas que apareciam à porta tratassem de reservar online, à pressa, uma mesa para dali a cinco minutos; contudo, a Adega não podia ter um host constantemente ligado à Internet para gerir essas marcações. Criou-se uma resposta automática para essas situações: reservas unicamente por telefone. E, para evidenciar que a Adega não é um restaurante só de turistas, as publicações das redes sociais são apenas feitas em bom português.  

Quem entra na Adega de S. Nicolau, seja português ou estrangeiro, encontra um menu quase imutável. Do tempo do pai, Renata retirou uma ou outra coisa mais banal, como o salmão grelhado. Acrescentaram-se alguns pratos, e há receitas, como o Bacalhau à Gomes de Sá, que são mais usadas em certas épocas; mas a base manteve-se. «Não consigo ter uma carta sazonal», evidencia a responsável. Sendo verão ou inverno, há pedidos de Rabo de Vitela. E há sempre clientes para as Tripas à Moda do Porto ou para os Filetes de Polvo, com arroz seco, sem caldos, ou seja, um arroz também à moda do Porto.  

São nomes de pratos tradicionais e reconhecíveis, pois claro. Por isso, quando a Adega de S. Nicolau recebeu o Premio Especial Restaurante Clássico do Ano, promovido pelo site Mesa Marcada, Renata Coelho sentiu alguma estranheza. «Aquando da nomeação, pensei que ‘restaurante clássico’, no meu entender, era o Portucale ou o Mário Luso; não por qualquer conotação pejorativa, nem pensar, mas sim pelo tipo de serviço. O nosso é mais informal. Se vêm perguntar pela casa de banho ao Hélder, ele pode apontar para o rio e dizer: “É ali”. Esta informalidade não encaixa no meu sentido de um restaurante clássico. Somos gente jovem; eles sabem serviço a talher, espinham um peixe sem problemas, mas somos informais.» Talvez o conceito de clássico, na atribuição do prémio, afinal também englobasse o conceito de tradicional? O prémio, seja como for, foi uma grata e fresca surpresa, até porque, ultimamente, quase só apareciam restaurantes de Lisboa nomeados para as várias categorias. O reconhecimento do serviço e comida da Adega demonstrado por outros empresários, por chefes e foodies, por gente conhecedora da área, representou também uma espécie de homenagem ao legado deixado por António Coelho. As pessoas lembram-se. E Renata partilha a história de um cliente que viera ao restaurante, juntamente com o filho, pouco após o seu divórcio. Estavam ambos em baixo e o senhor, em conversa com Renata, relembrava-se do acontecido: «O seu pai sentou-se lá fora com o meu filho e estiveram ali imenso tempo, entretidos com uma fisga, a atirarem cerejas.» São as histórias que ficam de um homem que era assim, dado. E quando necessário, rude, como quando um cliente, no final da refeição, disse que só pagava metade, por um prato estar salgado. António respondeu: “Ou paga tudo ou não paga nada.” O cliente insistia em pagar só metade, mas ouvia a mesma resposta: “Ou paga tudo ou não paga nada.” Até que, cansado da rábula, António Coelho pegou na conta e rasgou-a, pedindo gentilmente ao cliente que se retirasse. «Eu não consigo fazer isto», confessa Renata, relembrando a estaleca de um homem que começou a trabalhar com oito anos. Era uma referência da Ribeira e alguns jovens, como Pedro Braga ou Vasco Coelho Santos, vinham ter com ele, ávidos de entrar no mundo da cozinha. António dava-lhes uma palmadinha nas costas e dizia-lhes carinhosamente, em bom jargão nortenho: “Vai-te foder; nós não precisamos de chefes, precisamos é de cozinheiros.” A Adega, e o dono da Adega, não eram apenas uma questão de comida. Havia uma dimensão emocional. «Sinto que há pessoas que ainda não voltaram à Adega por saberem que não o vão encontrar», diz Renata Coelho.  

 O passado do restaurante, no entanto, vem ainda mais de longe. O primeiro alvará, durante tantos anos exposto na parede, data de 1930. Era então uma simples e típica casa de pasto, um tasquinho de rés-do-chão explorado por José Loureiro, com a tradicional ligação ao andar de cima, local em que o proprietário residia. Desses tempos, sobra ainda na memória, em forma de placa afixada à porta do restaurante, a formação de um clube: Nesta casa foi fundado o Grupo Desportivo Infante D. Henrique, em 22-3-1941. O alvará tem regras que evocam os costumes da época, como a proibição de escarrar no chão. Hábitos que António Coelho, quando começou a trabalhar na zona, primeiro na casa Vitorino, depois na casa Cardoso, terá visto desaparecerem, antes de surgir a oportunidade de trespasse da Adega de S. Nicolau. 

Qual será, então, o segredo de tamanha longevidade? Renata Coelho entende que será um reflexo do respeito pelo cliente, do respeito pela gastronomia, da honestidade do que se oferece a quem se senta na Adega. Também terá importância a presença. Os rostos habituais. Há clientes que voltam à casa sem saberem da morte de António Coelho; quando perguntam a Renata pelo pai e sabem do sucedido, mostram-se muito sensibilizados. No entanto, a vida prossegue e já há gente que vem visitar Renata, ou os empregados Mafalda e Hélder, há tantos anos na casa. «As pessoas reconhecem quem trabalha no espaço e percebem que não são apenas mais um cliente. Há quem tenha começado a vir à Adega ainda adolescente e agora já traz os filhos.» É um hábito que se passa de geração em geração. Uma continuidade.  

Após a morte do pai, Renata optou por instituir horários contínuos, em vez do horário repartido, como forma de tentar manter o pessoal. Talvez essa pudesse ter sido uma das poucas divergências entre ambos, mas, para a gestora jamais esquecida da costela de assistente social, era importante manter a motivação da equipa que já conhecia tão bem; uma equipa que, por sua vez, conhecia bem a clientela, ajudando a fazer o ambiente informal e caseiro do restaurante. «Não queria perder esta gente», diz Renata. E, ciente de que uns iam ter filhos e de que outros já eram mães ou pais, Renata optou pelos horários contínuos; o primeiro turno entra às 11 e sai às 18; o seguinte chega às 18 e sai no final. «Isto favorece muito a vida familiar e aumenta a motivação», assinala a gestora. «São bem mais felizes, acho, e eu também, por não andar sempre a ter que fazer entrevistas de emprego.» 

Na Adega preza-se a estabilidade. Trabalhar como uma grande família, um núcleo de gente capaz de ajudar quem mais precisa. Renata Coelho e a sua equipa ligaram-se um par de vezes a uma missão de entrega de refeições ao hospital de S. João, mas não foi essa a única atividade solidária em que participaram nos tempos de pandemia. Na parceria entre o Banco Alimentar e a Entreajuda, organismo que junta voluntários para apoio a instituições de solidariedade social, trabalharam na Rede de Emergência Alimentar para confecionar os géneros doados em refeições prontas a servir. «Começámos a fazer, semanalmente, a entrega de 100 refeições a instituições. Isto durante dois anos.» A certa altura, calhou que a dádiva fosse para o serviço de comida aos sem-abrigo da Porta Solidária, na Igreja do Marquês. «Fomos lá levar a comida e percebemos que precisavam de ajuda na cozinha e no embalar das refeições. E também fomos ficando. Estávamos em lay-off e à quinta-feira fazíamos aqui a refeição; à terça e ao domingo, íamos confecionar à Igreja. Deixámos de conseguir colaborar quando abriram novamente os restaurantes.» O cansaço acumulado ditava novas formas de ser solidário. No caso específico de Renata, a gravidez tornou as viagens de um lado para o outro um pouco mais pesadas. 

Ao sair da Adega, tocamos com os dedos as mesas feitas de madeira de barricas; ao que parece, no primeiro ano em que foram parar à esplanada, às primeiras chuvas, o chão ficou manchado de vinho. Descemos uns metros para apreciar um Douro carregado de memórias e pensamos que um dia talvez seja um filho de Renata Coelho a relembrar os tempos passados no restaurante, ao lado da mãe, e a contar histórias como a das barricas. Sejamos fãs de Star Trek para adotarmos o cumprimento habitual dos vulcanos e desejar «vida longa e próspera» à Adega de S. Nicolau. 

NOTA: Este artigo foi publicado originalmente na revista INTER Magazine e é da autoria de Paulo Morais.  

Foto: Humberto Mouco 

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