Marta Nunes

Chama-se Marta Nunes, tem 23 anos e é cozinheira no Sublime Comporta Hotel & Spa, Alcácer do Sal. Em 2021 venceu o concurso Jovem Talento da Gastronomia, na categoria Jovens Profissionais e está a preparar a sua prestação no concurso internacional Jeunes Chefs Rôtisseurs, como representante de Portugal. A prova vai acontecer no México, em Outubro. 

Quem é a Marta Nunes? 

Nasci em Setúbal mas sou orgulhosamente de Palmela. Crescer numa vila e num meio mais pequeno deu-me tempo e oportunidade para brincar no campo, para respeitar tradições e perceber a importância do tempo. 
 Palmela é uma região bastante agrícola, mais do que a produção de vinho é uma região onde muitas famílias têm terrenos agrícolas com vinhas, hortas, criação de animais, caça e árvores de fruta. Cresci a saber que os melhores figos são comidos de baixo da figueira numa tarde de agosto. 

Como foi o teu percurso profissional até agora? 

  Comecei o meu percurso na Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal, com o curso nível IV Técnicas de Cozinha e Pastelaria (equivalente ao 12º Ano), agregado ao mesmo fiz dois estágios, no Altis Belém Hotel & Spa (2014) e no L’AND Vineyards (2015), quando terminei fui para a Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, onde tirei um curso nível V e nesse ano estagiei no Restaurante Alma (2017) do chefe Henrique Sá Pessoa. 

O meu primeiro trabalho foi no restaurante Tabik (2018) e depois estive no Bairro Alto Hotel (2019). Com o início da pandemia fui uma das muitas pessoas que ficaram sem trabalho e aí surge a oportunidade de fazer a abertura do Sublime Comporta Beach Club, onde estive cerca de 1 ano e meio. Atualmente faço parte da equipa do Sublime Comporta Hotel & Spa. 

Como foi teres vencido o JTG Jovens Profissionais e seres a representante portuguesa do concurso internacional Jeunes Chefs Rôtisseurs? 

Foi a primeira vez que me desafiei a participar num concurso e pensar que a partir de agora, qualquer concurso a que concorra terá outro peso, é assustador. Fiquei estupefacta porque apesar de ter trabalhado imenso, não esperava ganhar. Estou orgulhosa do que fiz. O feedback tem sido muito positivo e sem dúvida que é bagagem para a minha carreira num contexto diferente. Sorte e talento faz-se de trabalho!  

Quanto à preparação para o concurso da Jeunes Chef Rôtisseurs já está a ser exigente pelo estudo que é exigido, quer em termos de ingredientes como técnicas-base de cozinha francesa. 

Quando ganhei o concurso comecei a investir em alguns livros clássicos de cozinha francesa para que dessa forma ganhasse bases sólidas, para criar o meu menu. Com a mentoria do chefe Luís Gaspar vou conseguir ganhar mais conhecimentos e melhorar para a prova. 

 O que mais me entusiasma é viver a experiência de um concurso desta amplitude é conhecer pessoas diferentes e perceber a forma de trabalhar noutros países; o meu maior receio é não estar suficientemente preparada para a prova, quer em termos de timings quer produtos que muitos variam dos que trabalhamos em Portugal.  Mas quero mostrar a técnica e sabores portugueses. 

E onde te vês daqui a 10 anos? 
Daqui a 10 anos quero dar-me ao luxo de ter tempo. Ter tempo para me dedicar a projetos pessoais e profissionais. Quero cada vez mais estar ligada à produção alimentar, não só à cozinha mas ao produto. Gostava de fazer pequenas produções de azeite e de começar um projeto de agricultura sustentável. Daqui a 10 anos quero estar a dar cara a um projeto que me identifique e que quem lá passe saiba que é meu, da mesma forma que aqueles cantores que mesmo sem conhecer a música sabemos quem é pelo timbre e o tipo de música. 

O que te inspira no dia-a-dia? 
Há várias coisas que me inspiram na vida e me fazem levantar da cama todos os dias. Gosto do que faço mas gosto de tantas outras coisas. Amo viajar, um bom pôr do sol, a minha família e amigos. Gosto de me sentir viva e não estar só a existir. Os pequenos momentos de felicidade que procuro, deixam-me mais viva. 

O meu trabalho possibilita conhecer diferentes pessoas, culturas, ideias, formatos e lugares, o que faz com que a minha vida não se torne tão monótona e seja mais dinâmica. 

Recordas como começaste a cozinhar e aquele momento em que decidiste que querias ser cozinheira? Se não fosses cozinheira, o que gostarias de ser? 

Recordo-me vagamente de em criança fazer doces de Natal com os meus avós e bolos com a minha mãe. Numa fase inicial, a pastelaria chamava-me mais à atenção, mas no curso percebi que pastelaria não é para mim, mas sim cozinha. Era espectadora assídua de 24Kitchen.  Se não fosse cozinheira teria uma profissão relacionado com artes. Estudei música, fiz parte de um grupo de teatro, gosto de desenhar, de ler e escrever.  

Que valores consideras mais importantes para seres uma cozinheira de mão cheia? 
Aquilo que as cozinheiras de mão cheia colocam na comida é amor. Quando estou em Palmela e os meus avós me perguntam o que quero para o almoço, eu sei que o almoço está pronto antes da hora marcada, sei que para eles vai faltar sempre alguma coisa, mas para mim está perfeito e isso é amor! Sou da opinião que o que fazemos de especial, é especial pelo sentimento com que o fazemos!  

Um bom cozinheiro nunca acha que sabe tudo, nunca para de pesquisar, procurar, viajar, comer e descobrir coisas novas, pois só assim somos melhores. Como em tantas outras, esta é uma área em constante evolução. Além de ter técnica culinária, acertar nos tempos de cozedura e nos temperos, cada vez mais é preciso sermos seres humanos íntegros, honestos, humildes e valorizar cada vez mais o tempo e os valores pessoais que, infelizmente, ainda são tão desvalorizados na nossa área. 

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