Jossara Martins

Dona de uma personalidade energética, Jossara Martins é uma mulher empreendedora, chefe de cozinha e proprietária dos restaurantes Jossy’s The American Burger e 3 Marias, em Vila Real de Santo António, a sua terra natal e pela qual é apaixonada.

Jossara Martins nasceu influenciada pelos cheiros e sabores da infância. Filha de pais ligados à restauração, inevitavelmente foi parar ao mundo da cozinha. Após estudar gestão e produção de cozinha começou a sua experiência profissional no Assinatura, Lisboa, com o chefe Henrique Mouro. Depois, passou pelo Il Gallo D’Oro, Funchal e pelo restaurante AS, Amesterdão. Do seu percurso fazem ainda parte o Hotel Companhia das Culturas e os restaurantes Chapitô, Vistas e Guarita Terrace.

Em 2018 abriu o seu primeiro restaurante, Jossy’s The American Burger. Este ano inaugurou um segundo espaço, o restaurante 3 Marias, com foco nos produtos regionais e da estação.

Que memórias e sabores guardas da tua infância?

As memórias são muitas, o meu avô materno era motorista de um barco de marisco, sendo a imagem mais presente que tenho é dele a chegar a casa e trazer sempre um saco cheio de lavagantes, lagostins e lagostas. O cheiro a marisco em casa era constante. Recordo da minha avó mandar-me levar marisco às vizinhas pois lá em casa já se inventavam pratos para cozinhar tanto marisco. Adorava quando a minha avó fazia uma espécie de lagosta à Brás. Quando ia de férias para a casa dos meus avós paternos, de origem Africana, os cheiros e temperos eram outros, era uma casa cheia de gente onde se ouvia música e se batia o funge com um pau e se segurava a panela no chão com os pés. O cheiro do óleo de palma, as carnes e os peixes pendurados nas cordas da roupa. Passavam-se os dias na cozinha a cozinhar e a dançar, muitas gargalhadas e grandes panelas a fumegar. Esta é a recordação de que mais saudades tenho.

Como foi crescer em Vila Real de Santo António, ali bem perto do rio?

Tenho algumas recordações das fábricas de conservas, recordo-me de ver os barcos chegarem com atuns e fazerem o seu desmanche. Os meus pais trabalhavam os dois em hotelaria pelo que passei a minha infância entre restaurantes e bares. 

Já tinhas algum interesse pela cozinha enquanto jovem?

Sempre disse que nunca seria cozinheira. Havia um restaurante em Monte Gordo que eu adorava ir, era um restaurante clássico dos anos 90. Com seis anos implorava aos meus pais para ir lá jantar um Vol-au-vent de salmão e um crepe Suzette. Houve um dia que fui visitar a cozinha e vi um senhor já com os seus 60 anos, vestido com uma jaleca e um avental branco sujo, a transpirar com uma expressão de tristeza e cansaço de ver as panelas enormes no fogão a fumegar. Achei aquela imagem horrorosa e ali naquele momento decidi que nunca iria ser cozinheira.

O que mudou entretanto?

A cozinha surgiu no momento em que fui trabalhar num restaurante para juntar dinheiro para ir para a universidade. Era empregada de mesa mas estava sempre na cozinha a ajudar. Nessa altura não sabia cozinhar e comecei a interessar-me por este mundo. O chefe começou a puxar por mim e já me deixava fazer a comida para o pessoal. Depois fui para a universidade e ficou sempre aquele bichinho, em casa fazia jantares ao sábado para os amigos. Via o Entre Pratos, do Henrique Sá Pessoa, na televisão e replicava as suas receitas. Os sábados lá em casa já eram tão famosos que quando dei por mim tinha 20 pessoas em casa para jantar. Houve um dia que o meu namorado me questionou sobre ir para a Escola de Hotelaria tirar o curso de Gestão e Produção de Cozinha. Eu ainda torci o nariz mas ao mesmo tempo coloquei na balança o tempo que passava a cozinhar e o tempo que passava a pintar e qual dos dois me fazia sentir mais feliz. Decidi arriscar e quando comecei o curso, senti que afinal era mesmo aquilo que eu queria para a minha vida.

Que desafio é este do restaurante 3 Marias. Como surgiu a ideia?

O 3 Marias é, para mim, um sonho tornado realidade. Quando abri o Jossy’s The American Burger foi numa fase da minha vida onde estava a trabalhar muito. Estava num restaurante onde estávamos a tentar ganhar uma estrela Michelin, o meu filho tinha um ano e o meu corpo decidiu que era altura de abrandar. Diagnosticaram-me uma doença autoimune que afetava a minha respiração e que fazia com que desmaiasse a meio do serviço. Decidi que teria de abrandar. Contra a opinião de muitos, abri o espaço e apliquei os meus conhecimentos num conceito de hamburgueria, enquanto não abria o restaurante que sonhava. Passados quatro anos comecei a sentir que estava a estagnar e fui procurar espaços para alugar.  Quando consegui o contacto do dono do espaço onde hoje está as 3 Marias, senti que era o momento certo e falei com as minhas sócias Ana Patrícia e Ângela para iniciarmos a nossa aventura. Um mês e meio depois, abrimos as portas com um conceito diferente do existente na nossa terra, com uma cozinha jovem, dinâmica e descontraída.

Em que tipo de cozinha acreditas? 

Acredito numa cozinha natural e com recurso aos produtos que nos dá a natureza no momento. Isto é, ter o produto e aplicá-lo num prato. Acredito numa cozinha da terra, uma cozinha que flua conforme as estações do ano, os solos e com baixa pegada ecológica.

Foto: DR

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