Casas de alma e coração africano 

Mas o que é isto da conexão e da cozinha africana? O que é a cozinha sem as pessoas? O que nos trazem estes embaixadores gastronómicos e o que os motiva? Qual é a história por trás da sua arte? Foi de braços abertos que a INTER magazine foi recebida para uma entrevista por quatro destes embaixadores, são eles responsáveis e chefes de restaurantes em Lisboa. Foi entre conversas descontraídas de igual para igual e em tom familiar que os fomos conhecendo um pouco melhor. Esta é uma das características mais marcantes de quem tem África nas veias e no coração, o conceito de família e do bem receber. 

Cabo Verde 

Ao chegar à Rua de São Bento, salta de imediato ao olho a fachada lateral do edifício que alberga o Centro Cultural de Cabo Verde e onde está inserido o restaurante By Milocas. Em tons de azul, vermelho e branco, está um mural que homenageia as mulheres de Cabo Verde, e quem se aproxima do edifício, em paralelo e no chão, vê uma espécie de “Walk of Fame”, nele figuram nomes como: Cesária Évora, Norberto Tavares, Bana, Ildo Lobo, entre tantos outros que ajudaram a espalhar a cultura deste país africano. 

Depois de descermos para um reservado átrio, com uma imponente laranjeira, a INTER magazine encontrou a sua anfitriã, tinha acabado de almoçar e os aromas ainda perduravam pelo restaurante iluminado e amplo. Milu, Mimi, Mila, Milocas são os variados nomes a que responde aos amigos, oficialmente é Maria Belmira Milocas. A chefe e responsável do espaço nasceu em Cabo Verde e o caminho trouxe-la para Portugal há muitos anos, mais precisamente em 1980, e ainda hoje recorda todos os sítios por onde teve: “Nada como Portugal, uma pessoa já se sente em casa, já me fartei de andar, mas quando pensava voltar a casa… é onde? Aqui. Eu sou cabo-verdiana e portuguesa”. 

A responsável pelo By Milocas, antigo Bistrô Crioulo, começou o seu percurso no sector em Cabo Verde, trabalhava na sala de um restaurante. Entretanto tirou um curso de Maître d’Hotel através da cooperação francesa, e como dominava bem a língua seguiu para a Embaixada de França, mas não ficou por aqui. A chefe foi estagiar para a sala de um hotel em Paris, perto da avenida Champs-Élysées. A sua estadia em Paris durou três anos, e a cada 15 dias visitava a família. Foi então que tomou a decisão de vir para Portugal e, sem olhar para trás, criou raízes em terras lusitanas e foi no seu primeiro trabalho na Associação Cabo-verdiana, em Lisboa, que conheceu o marido e futuro pai dos dois filhos. Com 21 anos, “ainda muito novita e magrinha”, foi para a cozinha do restaurante da Associação, “quando vim para cá já estava farta da sala e queria era ir para a cozinha, sempre tive esse bichinho, em França um empregado de mesa tinha de saber tudo o que um prato leva, a sua forma de confeccionar, os condimentos, os molhos…”. As bases já tinha e de desafios diz que nunca teve medo “de se entregar”. A chefe ficou na associação durante quinze anos. Já tinha clientela habitual, e foi através de um cliente que foi alertada para a existência de um curso de cozinha providenciado pela Comunidade Europeia. Era oficial, a cozinha seria a sua eleição profissional.  

Em seguida, esteve oito anos como chefe no refeitório interno do Hospital Santa Maria, onde ainda tem memórias e conta-nos alguns dos episódios. A janela da cozinha era grande, dava para ver tudo o que se passava por lá e é assim que gosta de trabalhar. Na cantina “fazia comida tradicional portuguesa, de vez em quando metia pratos franceses, e depois metia pratos de Cabo Verde… O cozinheiro conquista. Não podiam ser fortes, mas os condimentos que usamos lá são os de cá, não há nada diferente, sem ser a mandioca, a batata-doce, banana verde. Mas tudo o que é nosso há cá”.  

Depois desta experiência, passou pelo Café da Ponte, nas Docas de Alcântara, que abriu com um amigo angolano e, após dez anos, decidiu mudar-se para a cozinha do Ritz Club. Neste empreendimento da Câmara de Lisboa onde reiteravam os teatros, os espectáculos e a música, ficou dezasseis anos. Recorda com carinho a sua passagem neste espaço e as talentosas pessoas com quem lidava diariamente, como Vitorino Salomé, Hélder Costa e Maria do Céu Guerra. Mas a vida é feita de mudanças e a chefe Milocas foi convidada a ir trabalhar para a SIC, “eu fui muito abençoada, a minha vida em Portugal foi sempre surpreendida pela positiva”. Cozinhava para a equipa da estação televisiva e “era um trabalho que dava gozo”, mas com a SIC a ir para Paço d’Arcos assim foi também Maria Belmira Milocas para outros ares, mais “verdes”. A responsável do By Milocas fez catering em Alvalade para o Sporting. Mas estava na altura de abrir algo seu, O Centenário, e correu tão bem que abriu um maior localizado duas ruas acima onde cozinhava pratos africanos e portugueses. Contudo, a pandemia trocou-lhe as voltas e o conceito não estava preparado para o take-away e para as entregas ao domicílio. A chefe não desanimou: “não há bem que nunca acabe e não há mal que sempre dure”. Ainda foi ajudar um amigo no espaço Farol de Santa Luzia, mas concluiu que era altura de acalmar e ter algo seu onde estipulasse os horários, foi no Bistrô Crioulo, onde assumiu as rédeas o ano passado e passou a ser o agora By Milocas.  

É um restaurante com uma vertente cultural e tem clientes portugueses de todos os estratos sociais, mais do que cabo-verdianos, “talvez por ter andado por aí e já ter um grupo de pessoas que sempre me acompanharam”, reflete. Entre gravações e demonstrações de como se faz, por exemplo, a cachupa, vai recebendo alguns eventos com música da sua terra natal. No domingo anterior à entrevista, tinha recebido a cantora Mayra Andrade numa homenagem ao artista Orlando Pantera, também ele na “Walk of Fame” cabo-verdiana. A cozinha é a dela. De Cabo Verde trouxe na memória os pratos que a mãe fazia. Descreve-nos como passava a Páscoa e revela que era a altura da chamada comida de cinza, “para encher a mesa”. Entre os variados pratos está o Xerém em óleo de coco, o peixe seco demolhado e, posteriormente, cozido com batata-doce, mandioca, ovos e três tipos de couve; também existia um que continha feijão, lentilhas, favas peladas, ovo escalfado e também podia levar atum e coentros; preparavam esparregado com couve portuguesa, alho e podia ser adicionado o espinafre. O esparregado era feito no pilão e ainda hoje segue esta preparação no By Milocas. “Foi uma comida com que todos nós crescemos, somos uma família grande. Em Cabo Verde todas as casas têm quintal, então faziam-se fogueiras com uma panela para cada coisa. Todos ajudávamos”, e depois juntavam-se todos “numa mesa enorme”. Ainda hoje defende este conceito de reunião à hora da refeição e fez questão de incuti-lo aos seus filhos. 

Alguns dos pratos da cozinheira são inspirados nos seus tempos em Cabo Verde e noutros dá um toque mais moderno “uma cultura nunca acaba, é bom ir enriquecendo os paladares. De vez em quando vamos adaptando ou damos um toque diferente como uma mandioca crisp [laminada e frita]. As pessoas acabam por gostar de coisas diferentes”. É da opinião que as pessoas estão cada vez mais abertas a este tipo de comida, exemplifica com os amigos dos filhos, com quem estudaram largos anos e ainda hoje se dão, um asiático e outro árabe: “cresceram em minha casa e comem tudo o que faço, tudo…” É assim este ambiente familiar que promove no seu restaurante, este boca a boca, este ciclo natural de juntar culturas, que diz dar-lhe tanto gozo. Os vizinhos aparecem pelo cheiro e a chefe Milocas vai à sala para os ver, a eles e aos que por lá ficam a saborear a sua comida, “eu fico com uma gratidão a vê-los gostar do prato, é uma gratidão que só Deus sabe.” A INTER magazine despediu-se da chefe do espaço inserido no Centro Cultural de Cabo Verde, e Maria Belmira Milocas despediu-se de nós à moda cabo-verdiana, oferecendo-nos para o caminho um copo de poncha. 

Angola 

Paulo Soares é o chefe responsável pela cozinha da Casa de Angola, uma associação privada independente do governo angolano. “Isto é a Casa da Cultura de Angola independente, é a casa dos sócios para todos os angolanos e amigos”, explica-nos o chefe natural de Luanda. Já está neste espaço, localizado perto do Jardim das Amoreiras, há quinze anos, mas o seu percurso até esta cozinha tem história. 

Paulo veio para Portugal em 1982. Veio para estudar e a par foi trabalhar na restauração para conseguir pagar os estudos e não depender da família, mas tomou-lhe o gosto e optou pela comida tradicional portuguesa, “começou por necessidade, mas voltaria a passar por ela porque foi uma fase de vida que me definiu muito como pessoa”, admite. Em 1997, decidiu tirar um curso de cozinha na Escola de Hotelaria do Estoril. Foi através da escola que arranjou emprego como mordomo numa casa privada na Quinta da Marinha, “foi a melhor altura da minha vida”, lembra o chefe. Dali passaria para um bar e restaurante na Travessa de Sta. Quitéria, em Lisboa, foi o seu primeiro espaço comercial e onde ficou quatro anos. Considera-se um pouco rebelde e é neste mote que pega na mochila e, sem nada programado, vai viajar pelo mundo durante dois anos. Quando regressa a Portugal instala-se por três anos como gerente no Vaskus Grill, um restaurante de carnes que servia picanha.  

Paulo decidiu arriscar-se novamente e abriu um bar de música angolana, Terra da Música, perto do teatro Maria Matos. Neste espaço não era só servida música, por vezes apresentava alguns sabores de onde é natural, um pedido especial da comunidade deste país que frequentava o bar “Paulo, tens de fazer uma moamba, foram assim colocando o bichinho e eu, aos poucos, dentro do bar fui fazendo algumas coisas, porque a malta angolana gosta de comer”. O Terra da Música era igualmente frequentado por elementos do governo de Angola, mas não só; naquela altura entre os clientes também estavam os responsáveis pela Casa de Angola. É assim que surge um primeiro convite para ir trabalhar para onde está hoje. Ao fim de cerca de sete anos à frente do bar, em 2007 decide mudar de ares e aceita o desafio anteriormente lançado pela Casa de Angola: chefiar a cozinha. “Eu fiquei encantado com o espaço, só havia um problema. Uma coisa é fazer comida num bar e outra é cozinhar regularmente e ainda por cima pratos angolanos. A minha base é a comida portuguesa”. É então que a sua mãe, que cozinha muito bem, entrou em cena à frente desta cozinha. “A minha mãe veio para aqui dar-me umas dicas e ajudou-me bastante no processo inicial, foi muito importante. Fui vendo e aperfeiçoando. Hoje em dia a minha mãe come comida angolana feita por mim, já não come feita por ela porque acha que não sabe fazer. O resultado foi esse”, conta o chefe Paulo à gargalhada.  

Na cozinha da Casa da Angola faz questão de servir os clássicos e não gosta de complicar. “Quem não vai a Angola há muitos anos quer é um clássico, não quer um novo prato. E depois há pessoas que não vêm só para comer, mas para aprender sobre a comida e como se come”, explica o chefe que ainda completa que, por ali, é válido comer com as mãos pois em Angola há essa forte tradição, e neste espaço cultural, dentro de uma associação privada para os sócios e amigos, a ideia é colocar as pessoas à vontade. Na carta costuma ter moamba de galinha, calulu de carne seca, peito alto, mufete e o funge de peixe frito. O espaço é procurado “por gente cota, mais velhos, que gostam de comer, beber e conviver. Também vem alguma malta mais jovem. Eu tenho aqui almoços que começam ao meio-dia e só acabam às sete da tarde”.  

Paulo Soares vai todos os anos de férias a Luanda e diz que não tem o hábito de comer fora de casa, nem ele nem a maior parte dos angolanos. “Cá, num raio de três quilómetros, encontro mais restaurantes de comida angolana do que em Luanda e tenho muitos clientes que só comem em restaurantes em Portugal”, explica. As razões são várias, a principal é que em Angola a comida é para ser apreciada ao fim de semana em casa com a família, essa é a tradição. Não saem ao domingo à tarde para ir almoçar, ficam por casa no convívio, ainda assim recorda que o país “é uma antiga colónia portuguesa, os nossos hábitos são muito parecidos com os vossos, não precisamos é de datas específicas para nos reunirmos”. Descreve a ocasião do Natal como uma festividade diferente daqui, o peru e o bacalhau são postos de parte, com excepção de algumas pessoas que habitualmente são mais velhas e da altura colonial. “As festas do Natal em Angola são diferentes, é muita festa, muita carne, muito marisco, muito peixe, muito funge como o de cabidela. Eu, pessoalmente, quando vou passar o Natal a Luanda recuso-me a comer bacalhau”. Contudo, diz que o bolo-rei e rainha são indispensáveis. 

Quando questionado sobre a abertura a este tipo de comida aqui em Portugal, o chefe sente que a angolana tem estado com muita procura a todos os níveis, “recebo aqui muitos PALOPs, muitos estrangeiros. Tenho muitos alunos ligados a pais angolanos que estão a tirar o curso de cozinha e vêm cá para tirar uma formação. E cada vez mai, pessoas que não são angolanas, portugueses e portuguesas, querem aprender a fazer comida angolana. Ainda há pouco tempo fui dar um workshop ao CCB e foi um sucesso”. Paulo Soares defende que quem quer provar um pouco de Angola tem de passar pelo seu espaço. E assim fez connosco: deixou-nos um convite no ar para lá passarmos e sujarmos as mãos. 

Moçambique 

O restaurante Roda Viva Sabores & Saberes está situado perto do Museu do Fado e em plena Alfama, um dos bairros mais típicos de Lisboa. Aqui serve-se comida moçambicana e a decoração deste espaço em tudo lembra o país africano, em tons terracota e candeeiros feitos de chapéus de palha. O chefe e responsável do espaço é Octávio Chambas, natural de Inhambane, no Sul de Moçambique, e veio para Portugal em 2008 para estudar Antropologia na Universidade Nova. Não tinha bolsa e, para pagar os estudos, foi trabalhar para a cozinha de um grupo italiano. “Fui parar à restauração porque foi a oferta de trabalho que encontrei e descobri que gostava”, admite.  

Em Moçambique era músico, quando veio tirar Antropologia era para complementar essa área e seguir Etnomusicologia. Por lá já tinha tido negócios próprios e, inclusivamente, estudou gestão. Sempre esteve ligado ao associativismo e, em Portugal, continuou esse caminho. Foi através de uma associação, entretanto extinta e que se localizava na Calçada do Combro, que desenvolveu muitos dos seus projetos culturais, nomeadamente um que viria depois a homenagear. O primeiro Roda Viva estava ligado à pesquisa de instrumentos musicais tradicionais e à interação destes com as gerações. “Durante muito tempo estive com esse projeto e chegaram-me a arranjar uma temporada sobre Moçambique, com jogos, artes plásticas e exposições”, explica. Por esta altura conheceu uma pessoa da Câmara Municipal de Lisboa que lhe falou da iniciativa Loja no Bairro e da cedência de espaços. Octávio começou a magicar uma ideia inicial. “Era uma coisa muito maluca, na verdade eu queria criar um centro cultural. Nunca pensei abrir um restaurante, estava mais ligado à promoção da diversidade cultural, mas não tinha como sustentar esse projeto”. Ainda assim, com a criação de um espaço gastronómico viu um meio para atingir um fim. O Roda Viva Sabores & Saberes começa a ganhar forma a partir de 2013 e tudo acabou por fazer sentido. Isto é, além de servir refeições tipicamente moçambicanas, o espaço trabalha igualmente a componente cultural através de uma sala multiusos onde costuma receber eventos ligados à música, literatura e arte. O nome do restaurante não é por acaso. Octávio aproveita todas as oportunidades para disseminar a diversidade do seu país, é por isso que também tem um acordo com a Junta de Freguesia que lhe permite usar o lavadouro de Alfama para eventos.  

A arte da cozinha já é uma velha amiga e compara o sentimento de trabalhar num restaurante com os seus tempos de músico. “A adrenalina da hora do serviço faz-me lembrar a adrenalina do palco”, confessa o moçambicano completando que é viciado neste estímulo. O chefe de Inhambane vem de uma família numerosa e sendo um dos mais velhos da sua geração sempre ficou responsável pelas refeições. A avó foi a sua mestre. “É uma grande cozinheira e na minha casa comia-se muito bem! 90 por cento do que eu tenho no restaurante são os pratos que a minha avó fazia; eu não inventei nada”. A avó, com ascendências goesas, passou-lhe muitas receitas de família. “O Achar que eu faço é derivado dessa herança, assim como o caril”. Ka’Chamba é a marca criada pelo chefe do Roda Viva, o nome homenageia o avô e o conteúdo as suas raízes. Por enquanto, e já disponível no website da marca, ainda só se encontra pronto a vender o Achar, um aromático picante de confeção natural e caseira. A longo prazo e pouco a pouco, Octávio pretende estender esta marca para outros caminhos, mas as ideias ainda estão no papel. Um dos exemplos é a produção da sua própria matapa (folha de mandioca) e associá-la ao rótulo Ka’Chamba. A matapa é igualmente um dos pratos mais conhecidos e tradicionais de Moçambique, além da folha da mandioca pilada, leva um molho de amendoim e leite de coco, depois é adicionado um tipo de marisco (camarão ou caranguejo). O prato pode ser acompanhado com arroz ou com xima, um tipo de farinha de milho cozida. “Temos muito marisco, aliás a nossa cozinha é uma mistura entre a parte vegetariana do interior com a parte do marisco do litoral”, refere. O chefe do Roda Viva sente que a comida de Moçambique não é tão conhecida em oposição à moamba de Angola e à cachupa de Cabo Verde, mas há muita gente que nasceu em Moçambique que vive em Portugal, “seja português com origem lá, seja moçambicano que nasceu cá”. Outra questão que tem sentido, é que África está a entrar na moda há já uns anos e, como tal, muitos turistas que sabem da ligação de Portugal com este continente quando cá vêm procuram provar comida africana.  

Quanto à ementa do seu restaurante, Octávio tem procurado torná-la 100 por cento moçambicana, mas depara-se com alguns desafios: o conceito de carta ainda é muito pouco explorado nesta gastronomia e a importação de certos produtos é difícil. “A União Europeia tem regras muito próprias sob as importações vindas de África, muitas coisas não podem passar por não terem certificação de acordo com estas regras”, explica Octávio Chambas que encontrou soluções no mercado sul-americano, no asiático e no francês, que tem conexões com África. Uma outra solução que encontrou foi criar a sua própria horta. O chefe acha que a comida moçambicana vai acabar por se disseminar, pois além de ser uma cozinha com produtos de qualidade e naturais, é uma cozinha de confeção cuidada e em lume brando. No Roda Vida quando o cliente se senta à mesa não pode ter pressa, “aqui não vendemos só comida, mas uma experiência” e é por isso que o chefe do sul de Moçambique só abre aos jantares. Nos primeiros anos, o responsável do restaurante sentiu algumas hesitações por parte dos clientes na adesão ao seu conceito, mas com o passar do tempo tem observado uma grande melhoria. “As pessoas comentam nas redes sociais e com a internet o conceito tem-se naturalizado”, reflecte. É da opinião que não é preciso nenhum esforço adicional a nível da publicidade e o trabalho que tem de ser feito é por parte dos chefes. “Vai ter uma evolução natural, o esforço é no cuidado da qualidade da matéria-prima. As pessoas agora são mais exigentes e nós temos de respeitar a saúde das pessoas com os alimentos”. Esta é a forma de estar de Octávio Chambas, que ainda revela a sua intenção de criar uma rede de franchising do Roda Viva Sabores & Saberes. O chefe já tem algumas parcerias para avançar com o projeto. 

João Pedrosa não é natural de Moçambique, é português de gema, mas isso não significa que este país não tenha deixado saudade. O avô nasceu em Moçambique e o pai trabalhou muitos anos por estas terras quentes. Nos anos 80, João chegou inclusivamente a mudar o seu código postal para lá, embora com algumas interrupções. A partir daí e ao longo da sua juventude, Moçambique ficou como destino eleito para as férias escolares da Páscoa, de Natal, de Verão. “Enfim, basicamente andávamos entre cá e lá, fazíamos cá escola e passávamos lá as férias”, recorda nostalgicamente.  

O restaurante Ibo está situado no Cais do Sodré e virado para o Tejo. Para o chefe e para os seus sócios – o pai e a esposa do pai – a escolha do espaço e do nome não foi por eventualidade, existe toda uma simbologia por trás do conceito. “A ideia nunca foi fazer um restaurante moçambicano, mas evocar memórias e algo que fosse comum aos três, era Moçambique”, explica. Em 2007 começaram à procura de um espaço e encontraram: a localização no Cais do Sodré era a ideal e a vista para o rio compunha o cenário perfeito, “fazia lembrar a vista de Maputo, quando se olha para a outra margem e se vê Catembe”. A estas características ainda se adiciona a componente histórica, “este restaurante situa-se exactamente de onde partiam as caravelas para os Descobrimentos”, ligando assim a uma das razões da escolha do nome. Ibo é o nome de uma ilha no norte de Moçambique e era muito cosmopolita, pois tinha uma fusão de diferentes culturas. “Os portugueses tiveram uma presença muito forte nesta ilha desde a altura dos Descobrimentos, era uma forma de controlarem o comércio no Índico”, informa. Os anos 80, na altura da passagem de João e dos sócios pelo país africano, foram muito multiculturais, então o restaurante Ibo acaba por igualmente representar isso mesmo, “aquilo que é a tradição em Moçambique, uma tradição de influências, digamos assim, e isto na gastronomia nota-se imenso”. 

João Pedrosa sempre gostou muito de cozinhar. Aos onze anos já pedia ao pai para fazer o almoço ou o jantar. “Durante a minha juventude era normal levar amigos lá para casa e estarmos ali a cozinhar, quer dizer, eu cozinhava, e depois comíamos e bebíamos todos”, ri-se. Vem de uma família onde todos gostam de falar de comida e vinhos, têm gosto pela gastronomia e pelo estar à mesa. “Isto é como crescermos numa família de artistas e tornarmo-nos artistas”. Curiosamente, do avô paterno não tem memórias dele a cozinhar pratos deste país de onde é natural, lembra-se sim que “fazia muito bem caldeirada de peixe, era especialista”. Embora Moçambique tenha igualmente muito embrenhada a cultura do peixe e do marisco, “e esta forma nossa dos estufados, dos guisados. Pratos em lume brando, que precisam de tempo e que se encontram em casa”. “Disso lembro-me perfeitamente, muitos pratinhos de tacho… Essas memórias ficaram muito vivas, estão presentes ainda hoje em dia”. 

A paixão é grande, mas o percurso profissional do responsável pelo Ibo começou numa outra área de negócio, na organização de eventos. “Eu fazia a pré-produção, ia marcar os hotéis, marcar restaurantes. Muito novo comecei a ter a sensibilidade daquilo que são bons restaurantes”. No âmbito da organização de eventos viu-se igualmente a desenvolver a área de catering, ficava responsável por certos pormenores. Há uns anos, João Pedrosa e os sócios decidiram aventurar-se num bar em Sagres, no Algarve, chamado Warung – casa de festas e de receber comida e bebida, em Indonésio. Na altura a ideia até era ser apenas um bar, mas o espaço que era grande acabou por se tornar também num restaurante. “Eu era o responsável por tratar da equipa da cozinha, com a qual não estava satisfeito. Então os meus sócios desafiaram-me a ir para a cozinha. Embora seja autodidata, correu muito bem”. 

Correu tão bem, que o restaurante Ibo foi o passo seguinte. O espaço abriu oficialmente as suas portas em 2008 e começaram por colocar na carta algumas das coisas que gostavam de comer em Moçambique. “Começámos com uma salada de caranguejo, que não é um prato típico, a nossa ideia nunca foi fazer pratos típicos”. O restaurante homenageia alguns dos pratos que são de eleição dos três sócios, mas são representados de uma forma mais personalizada e sofisticada. Têm caril de caranguejo, os camarões à Laurentina, xacuti, depois foram aumentando a carta, “mas sem nunca ofuscar a componente portuguesa”, explica João Pedrosa. O chefe defende que a cozinha moçambicana não fica atrás de nenhuma outra e tem uma base muito boa, com bons produtos, a diferença é que tem de ser trabalhada. “A nossa preocupação aqui é não estragar, em Moçambique sempre houve bom peixe, bom camarão, moluscos, boa carne, seja frango, cabrito”. João descreve igualmente a qualidade das frutas tropicais, e as características perfumadas e aromáticas desta cozinha que tem influências indianas, portuguesas, francesas, chinesas. Nuances que foram ficando. “Hoje em dia é muito mais fácil abrir o Google e termos acesso às receitas do mundo, a comida tornou-se muito global. Há uns anos para termos este resultado eram precisos anos e anos de mistura de culturas”, explica. 

O responsável do espaço Ibo é da opinião que este restaurante ajudou a desmistificar a possível ideia errada que havia deste tipo de comida, “serviu para apresentá-la a muita gente que não conhecia e mostrar a sua verdadeira qualidade”. João diz ainda que o feedback tem sido muito positivo e este ano fazem 14 anos de porta aberta com um conceito que na altura foi pioneiro, “não havia nada de comida moçambicana dentro desta linha mais sofisticada. Temos clientes novos e clientes do primeiro dia. Conseguimos fidelizar muito bem com este conceito”. Sendo que o truque da restauração é a preparação e uma boa equipa. “Eles conhecem bem os sabores de Moçambique, a forma de se trabalhar, aliás nós temos uma equipa connosco já há imensos anos que é uma coisa rara neste sector”. 

Apesar do sucesso do seu espaço, o responsável pensa que falta alguma promoção a este tipo de comida. “As pessoas estão mais abertas, porque se tornaram mais conhecedoras, lêem mais sobre comida e gastronomia em geral, e, por isso, vão-se habituando a provar outras coisas. Depois, é uma bola de neve”, diz. Para os três sócios, explorar as redes sociais nunca foi um objetivo, pois a imagem e a comunicação aconteceram naturalmente e através da recomendação. “A própria sazonalidade da carta faz com que as pessoas venham várias vezes”, comenta João Pedrosa. O espaço muda a carta entre três a quatro vezes por ano. Por vezes têm algumas limitações com as importações, nomeadamente, com os produtos perecíveis como é o caso do marisco. Mas com a cerveja não tiveram problema e até lhes permitiu maximizar o rendimento na área das entregas e do take away. Muitos clientes encomendam packs de cerveja moçambicana, mais especificamente a Laurentina e a 2M. O que pode ser igualmente encomendado neste restaurante é o serviço Ibo em sua Casa. “É um produto chave na mão, o cliente não tem de se chatear com nada”, ou seja, previamente, é feita uma visita ao local para perceber se o produto vai pronto ou se é para finalizar na altura de servir, clarifica João. Além de permitir trabalhar um segmento mais alto, como por exemplo eventos de empresas. Através do website do espaço é possível ter acesso a este serviço, mas não só. Quem visita o espaço virtual é recebido com uma música ambiente tipicamente moçambicana enquanto se inspira na escolha dos pratos ou serviço. 

O Ibo é a prova viva de que não é preciso ser natural de um país para sentirmos carinho por ele, para querermos homenagear algo que nos apaixonou, que nos traz memórias. Seja a comida, sejam as pessoas. A cozinha africana, tal como todas as outras, é a transmissão de sabores, de culturas, de histórias. Reflexos de quem fomos, de quem somos. Numa era em que nada fica desconhecido e o acesso à informação está à distância de um bolso, não há motivo para não dar mais oportunidades à novidade dos paladares, dar oportunidade a estas casas com alma e com coração, tanto africano quanto português. 

NOTA: Este artigo foi publicado originalmente na revista INTER Magazine e é da autoria de Ana Rita Santos.

Foto: Humberto Mouco

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